7 de jan de 2014

SAUDOSISMO

Tenho saudades da minha filha. Ela não morreu ou viajou para algum local distante, sem contar que a vejo frequentemente. Explico: eu me refiro à minha filha em seus tempos de infância. E também digo o mesmo em relação a meu filho, o menino de cabelos lisos e riso fácil que hoje também não existe mais. Eram tão agarrados a mim!  E eu era a referência de ambos, espécie de porto seguro ou herói à moda antiga. O tempo passou e hoje são adultos, pessoas sérias e das quais me orgulho por tudo o que conquistaram, notadamente o sólido caráter e o bom coração. Mas ainda ouço as risadas e a voz infantil ecoarem em algum cantinho da minha memória, entre momentos que preservo carinhosamente e quase sempre me sugerem lágrimas de emoção. A menina de cabelos encaracolados e bochechudinha, o menino de covinha e ar peralta, que hoje, de alguma forma, estão presentes no novo filho...

18 de out de 2013

MEMÓRIAS DOCES, DOCENTES

O dia do professor passou, mas eu fiquei com a necessidade de postar alguma coisa. Então, resolvi fazer um esforço de memória no sentido de me recordar daqueles que marcaram de alguma forma os anos de estudos que me envolveram por tantos anos.
A primeira de que me lembro claramente é a profa. Maria José. Ela lecionava as primeiras letras, como diriam os muito antigos, em um colégio público de Vila Valqueire. Sempre arrumadinha e perfumada, era a queridinha das mães. Um dia foi afastada de nossa turma o que provocou muita choradeira e reclamação. No ginásio, lembro-me de uma professora de inglês que esbofeteou várias vezes o Mauro, aluno tagarela que incomodava bastante. O garoto ficou com as faces vermelhas e a professora sumiu. Eu não gostava deles, mas fiquei incomodado com o vaivém do rosto juvenil sob o impacto dos sonoros tapas.
Houve um professor que delirava ao falar de Capitu e Bentinho e ficou encantado com uma redação que fiz sobre a dupla machadiana. Eu estava então no segundo grau, época em que a professora de biologia passava apuros com a minha turma, por conta do impacto causado por suas generosas curvas nos hormônios florescentes da rapaziada. O professor de matemática arregalava os olhos quando alguma pergunta era feita, gesto que eu considerava divertido. E os professores elegantes de contabilidade que transpiravam conhecimento? Eu os respeitava...
Na universidade minha relação com os professores foi ambígua. Eu detestava os professores dogmáticos, que utilizavam sua posição para fazer doutrinamento de jovens. Briguei com alguns e fui punido com o rigor da nota - esse instrumento clássico de castigo. Dentro de mim ficou a impressão de serem pessoas rancorosas e vingativas e hoje os considero tão somente profissionais medíocres. Nas especializações, lembro-me do professor de história que parecia uma versão tupiniquim de Fidel, pois falava sem parar. Da professora que me mandou um bilhete, insistindo para que eu continuasse nos estudos. Ela me emprestou um livro, que jamais devolvi, por não ter como. No mestrado destaco meu orientador, professor Helmuth, o homem mais culto que conheci na vida. Ele dava suas aulas impecavelmente vestido; cartesiano, polido, educado, um alienígena no Brasil. Era chamado de conservador, um "porre", "João, por que você não troca de orientador?" Devo dizer que pouco aprendi com meu orientador. Em termos formais, diga-se. Não aprendi conteúdos, mas foi com este velho docente que conheci a generosidade intelectual, no estilo "não concordo com o que diz, mas morrerei defendendo o seu direito de dizer o que quiser". Ele não apreciava as teorias de minha predileção, mas confiava e passava confiança para que eu desenvolvesse as ideias. Um kantiano, sapere aude, OUSE SABER, máxima iluminista que condizia perfeitamente com a proposta pedagógica do professor Helmuth. Formal e chato, generoso e culto. Não ministrava aulas, fazia concertos de ideias, mal comparando, um show de bossa nova. Já com a professora Angela Arruda, no doutorado, conheci o significado da palavra intelectual. Humilde, desafetada e brilhante, docente que remoçava ao rir ou expor seus conhecimentos. Uma típica professora da UFRJ, de quem ainda sinto saudades. Mas conheci também nesse segmento um professor que nos mandava ler jornal e não trabalhava; no mestrado, uma que alardeava sua formação no exterior; outra que considerava os alunos insignificantes e assim por diante.
Ao me recordar de professores, penso também naqueles que conheci como colegas de trabalho. Destacaria a professora de município que adorava reprovar ou o professor de psicologia que se mostrava inseguro nos momentos iniciais de sua carreira. Eu me recordo de meus amigos Leonardo e Walter, estudiosos e... Eu me dou conta de que poderia escrever horas e horas sobre esse assunto. Conheci canalhas e mal intencionados, preguiçosos, carreiristas, assim como gente boa, brilhante, sincera, batalhadora. Aquele professor de geografia que conheci no Estado, seu rosto suado ainda tenho em mente, a carga horária sobre seus ombros... E o professor, diretor, supervisor, intelectual com seus oito mil livros... E tantos outros, muito loucos, estranhos e bizarros, de costumes inacreditáveis e talvez doentes. 
É claro que em uma classe tão numerosa a generalização só é possível no discurso piegas dos manuais ou autoridades da área. Professores são seres humanos complexos, o que pode ser outro chavão no final das contas, mas que dá conta desta diversidade de personalidades, interesses e atitudes. Uma coisa é certa - e preciso encerrar esse texto que acabou se avolumando além da conta. Enquanto profissionais, somos lembrados pelo que fazemos. A questão é: como quero ser lembrado? Como a professora que encheu o rosto do aluno chato de tapas ou como os professores de contabilidade de meu curso técnico? Como o professor que não trabalhava ou aquele que estimulava a ousadia intelectual? O bonzinho, que é bom por compreender o outro, ou o bonzinho que simplesmente evita polêmica? Espero que, pelo menos na média geral, eu seja uma boa recordação nas cabeças e corações de meus alunos...

3 de jul de 2013

MÃE DO PRÓPRIO NETO

Uma pessoa engraçada. Ela corta meu cabelo há alguns anos. Gente boa, que conversa muito, característica de sua profissão. Se gosto do serviço? Mais ou menos. Acomodei-me. Algumas vezes faz um corte legal, em outras se perde no meio de tanta conversa. Dessa vez ela me trouxe um assunto complicado, nada a ver com suas pesquisas sobre cabelos. É o seguinte. Tem uma filha casada e que vive bem. Mas não consegue engravidar, apesar do acompanhamento médico. E fez um inusitado pedido à mãe, a que corta o meu cabelo. Pediu que a mãe acomodasse em seu ventre um filho, ou seja, que recebesse em seu útero o embrião, a técnica que se conhecesse popularmente como "barriga de aluguel".
Ela cortou meu cabelo falando das implicações, já que decidiu aceitar. "Pela felicidade de minha filha eu faço qualquer coisa". De fato, uma situação complicada. Aos cinquenta anos ter todas as emoções e complicações de uma grávida e ficar grávida do filho de sua filha. As pessoas vão comentar, certamente. Que mundo pós-moderno é esse hein!

22 de abr de 2013

PEDREIROS

Mais uma pequena obra em casa. Odeio. A sujeira, o entulho, a poeira, o barulho, enfim, todos os inconvenientes que uma obra traz, por menor que seja. E o pior: sempre aparece uma nova coisa para fazer. Haja grana! Há pessoas que dizem gostar, tem gosto para tudo. Quem tem muito dinheiro manda jogar fora, refaz, troca tudo e não se preocupa com nada. Nós, reles mortais, temos que avaliar cada passo e tremer a cada nova indicação do pedreiro. O mundo é realmente estranho. Um dos profissionais mais importantes de nossas vidas é alguém sem qualquer formação. Ele constrói nossas casas, o lugar onde a gente vive, não é pouca coisa não. Pois bem, lidamos em geral com sujeitos sem cultura, higiene e escolaridade. Conheço vários pedreiros que fizeram belos serviços, boas casas, telhados, mansões, prédios, muros, enfim, constroem, constroem, e moram em verdadeiros barracos. Repetem o ditado: casa de ferreiro... 

14 de abr de 2013

NÚMEROS

Não sou fã de pesquisa quantitativa. Para aumentar minha ira, vejo aqui no blog uma estatística sobre a visualização das postagens. Até na Rússia o meu blog é lido! Ora, que grande piada! Alguns abnegados amigos leem o que aqui é postado e olhe lá! A tal estatística deve ser gerada automaticamente, objetivando maior credibilidade aos olhos de algum idiota. O efeito legitimador dos números em pesquisas é antigo.Como se os números pudessem criar verdades incontestáveis. As leis se baseiam em regularidades e estas expressas em números. Creio ter sido Galileu a dizer que a matemática é um alfabeto divino, utilizado para descrever o universo. Bem, se alguém declarar que lê meus alfarrábios lá da longínqua Rússia...

7 de abr de 2013

OS LÍRIOS

Pobre blog! Só me disponho a escrever quando não tenho tempo. O que dizer em minguados três minutos? E o que mais tenho feito na atualidade é escrever: projeto, artigo, conto... O blog cumpre exatamente essa função, dizer sem dizer, frase que me remete à filosofia zen budista. Aliás, escolhi um lugar completamente insólito para as minhas reflexões sobre o zen. O Facebook. Nada mais inadequado, alguém poderia dizer. Bem, eu insiro "lições matinais". Geralmente historietas da literatura oriental. E devo confessar que a iniciativa não é tão nobre assim. As lições são oferecidas a mim, eu as leio para relembrar, para manter aceso o fogo da sabedoria. Quem quiser que aproveite. E me lembro do ditado chinês: quando o mestre está pronto o discípulo aparece. Mudando de assunto. A semana passada foi duríssima! É bem verdade que nunca tive "refresco" na vida. Mas me confesso surpreso com a forma tranquila com que lidei com tantas e tantas situações novas e complicadas. E postei no no "Face": "Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham, nem fiam. Eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles". Uma lição de humildade, de devoção ao curso da natureza, enfim, o Tao...

18 de mar de 2013

CHIN, CHI, SHEN

Uma sensação vigorosa de bem estar. Não há nada melhor do que se sentir saudável. Após passar mal, essas afirmações tão simples tornam-se preciosas. É muito ruim estar ao lado de gente se deliciando com "altos" pratos e você não poder sequer chegar perto. Eu acredito muito no "chi", termo chinês para "energia vital". Eu aprendi a lição: chin, chi, shen. Energia grosseira que se transforma em energia de vida até a energia vital. Terra, respiração, alma. Algo exotérico é verdade, mas eu sinto isso. A energia me torna produtivo e cheio de tesão pela vida. Eu não tenho praticado meus exercício respiratórios e sinto muita falta deles. Curioso, o bem estar me puxa, demanda, boas práticas. Abri o alçapão do terraço. O céu está fechado. A energia flui. É hora de soltar o dragão...

12 de mar de 2013

MACHO?

Hoje, uma nova aventura. O termo aventura é adequado? Acontece que estou envolvido em uma pesquisa no segmento de gênero, especificamente, com mulheres pescadoras. Hoje, irei ao mar, em um barco alugado para filmá-las em ação. Temo pelo tempo, cuja previsão é de chuvas para o fim do dia. Fiz uma entrevista inicial com as pescadoras e ainda me lembro de seus semblantes resolutos e sorridentes. Esse grupo não pesca por necessidade e sim por prazer. Uma senhora de sessenta e poucos declarou: "não há prazer maior que estar no mar". Bem, lá vou eu. Como representante do sexo forte, não posso "pagar mico", do tipo ficar enjoado ou temer algum imprevisto. Macho! Ah! Essa minha vida cheia de emoções...

11 de mar de 2013

A TEMPESTADE

Raios, trovoadas e rajadas de vento.A tempestade me acordou. Não era uma madrugada fria e o quarto era iluminado eventualmente pela descarga elétrica do céu. Nessas horas, a criança aflora. Um medo adormecido se insinua, embora contido, amordaçado. Eu me recordo vagamente do tempo em que me encolhia no berço, assustado com a força da natureza. Burro velho, homem experiente e vivido, sinto dentro de mim a criança que um dia fui. Eu chamo de medo um sentimento que poderia ser caracterizado por reverência à natureza. Ou de insignificância diante de sua magnitude. Enquanto as rajadas de vento arrancavam galhos, goiabas e amêndoas, o meu coração se aperta. Penso nos desabrigados e nos acidentes que invariavelmente caracterizam as tempestades. Outro pedaço de mim sussurra que se trata de uma vingança divina. Uma vingança que está apenas começando, diz o meu lado racional, haja vista as intervenções que os humanos sistematicamente impõem no ecossistema. 

28 de fev de 2013

O BURACO

Um sujeito enfiava com força a enxada no chão, carpia. Outros o observavam. Simplesmente. E eu que passava, pensei: como é que alguém pode ter tempo e interesse de observar alguém que cava um buraco? Tão ocupado e cheio de minhocas na cabeça, emendei: o tempo não nos pertence. Tanto faz olhar ou não. Os caras olhavam a criação do buraco; eu os olhava a todos. Quem sabe alguém me olha lá do inferno ou do céu? Nunca sei quem lê as bobagens que escrevo aqui, com exceção dos eventuais comentaristas de sempre. Mas nesse exato momento não tenho para pensar mais nisso. A buzina lá fora avisa que devo ir.