16 de mai de 2010

"UMA PARTE DE MIM É SÓ VERTIGEM"

Abro a garrafa de licor e um cheiro desgraçadamente bom irrompe. Ah... que boa maneira de começar um texto... Trouxe-o da viagem do Nordeste e, enquanto ouço o Fagner dos velhos e bons tempos, entre um gole e outro, penso em voltar ao Nordeste em breve. Não para ver a miséria urbana de gente burguesa que vive do sangue do turismo ou dos tributos do povo. Não! Quero ver o povo de piatória de riba, que come cuscuz com leite apim e ovo, da voz rasgada e aberta como as sendas da caatinga. São as minhas raízes ocultas. Tenho que respeitar um compositor que diz '"teu olhar é cacimba barrenta meu bem, que gosto de espiar". O licor me aquece o sangue. "Teu amor é espinho de mandacaru que gosta de me arranhar". Uma vela gigantesca crepita no corredor, Deus está aqui em casa e o Dr. House também. Alguém me disse que tenho sido descuidado com os textos do blog. Ora, eu escrevo de improviso - para Mari e Bruno, declaradamente leitores desses alfarrábios. A tentação de "virar" a garrafa toda de licor é muito grande. Tenho motivos a comemorar e gosto de sentir o sangue quente. Pensei em enviar um texto longo para a Revista Piauí sobre o filme Um Profeta... mas não! Vou me contentar com "o aço dos meus olhos e o fel das minhas palavras" e quem sabe pensar em violas. "Uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém, fundo sem fundo..."

Um comentário:

Vanessa disse...

Lendo um trecho do texto, senti saudades de quando era criança, e comia o cuscuz amarelo que minha avó fazia enquanto contava os 'causos '(rsrs) dos meu bisavos e o 'piatório de riba'!Eram tardes muito engraçadas, um tempo que não volta mais...