28 de jul de 2009

O BAILARINO

A barba estava por fazer. Bem mais magro. Fazia jus a uma descrição de Euclides da Cunha, "esquálido e macerado", se não me falha a memória. Tentou fazer um gracejo. Aguardei o tempo protocolar e perguntei sobre a depressão. "A separação foi demais para mim", ele disse. "Você sabe, todas essas coisas..." - deixou no ar com o semblante triste. Respirei fundo e tirei de um lugar mais fundo ainda as palavras a seguir:
"Você não tem o direito de esmorecer. Mulher alguma vale um fio de cabelo branco seu. Você é uma das pessoas mais íntegras que conheci na vida. Você é um homem no sentido lato. Muita gente depende do seu exemplo. Aprendi muito com você!"
Ele disse: "Você está exagerando! O que poderia ter aprendido comigo?"
"Aprendi a sorrir diante da dificuldade. Quantas vezes você sem nenhum centavo no bolso tinha aquele sorriso irônico de menino... Você tem um espírito jovem. No espelho, não olhe o corpo, olhe a alma. Com seus quase oitenta você tem mais juventude que..."
Seus olhos se encheram de lágrimas. Eu me contive. Estava prestes a desabar, mas continuei:
"Eu não fui e nem vou lhe visitar. Esse não é você. Você não é a depressão. O sujeito que admiro não merece ser tragado pelo buraco negro da vida. "
Ele balbuciou: "eu vou melhorar, amanhã..."
"Você amanhã não vai estar mais assim. Não quero vê-lo assim. O mundo pode se pautar pelo dinheiro, pelas aparências, mas você não, você é o..."
"Sim?", ele parecia ganhar força.
"Você é o... o... bailarino!"
"Hein?"
"Você é o bailarino. Aquele que flutua com elegância pela dificuldade. Você é aquele que consegue flertar, rir da miséria humana, desliza na ponta dos pés para ficar sempre pertinho do céu..."
Ele sorriu como nos velhos tempos. Dei-lhe um abraço e carreguei o coração no bolso durante o retorno para casa.

Um comentário:

Aline disse...

O seu coração está sempre no bolso com uma palavra de conforto ou encorajamento...
J.Gênio...
Fugindo ao paradigma do Quociente de Inteligência ... Prefiro Kant...que classifica o gênio quanto à originalidade, a capacidade de superar-se...aos dotes naturais da pessoa...Cada um em seu tempo deixa sua contribuição: nas artes, na música, nas ciências...e na vida...